Lance de Náutico x Ponte — Foto: Marlon Costa/AGIF
Desabafo de Diogo Silva após derrota para o Náutico evidencia que o momento da Macaca vai muito além das quatro linhas
A derrota da Ponte Preta para o Náutico por 1 a 0, nos Aflitos, pela terceira rodada da Série B, até poderia ser analisada apenas pelo que aconteceu dentro de campo. A expulsão de Saravia, as dificuldades técnicas da equipe, a pouca criatividade ofensiva e a falta de resposta sob o comando de Rodrigo Santana são pontos que, naturalmente, chamam atenção.
Mas, desta vez, o resultado esportivo ficou em segundo plano.
Isso porque o desabafo do goleiro Diogo Silva, após a partida, trouxe à tona aquilo que parece ser o verdadeiro peso que a Ponte carrega atualmente: a crise nos bastidores. Mais do que uma simples reclamação, a fala do experiente arqueiro escancarou um cenário preocupante e que ajuda a explicar o momento delicado vivido pelo clube.
Remanescente do elenco campeão da Série C em 2025, Diogo foi direto ao apontar que, se a situação fora de campo não mudar, a Ponte corre sério risco de afundar ainda mais. O goleiro também deixou claro que os atrasos salariais vêm afetando de forma significativa o ambiente do grupo.
E não se trata de algo pontual.
Nos bastidores, o quadro é alarmante. Há relatos de jogadores que receberam apenas três salários desde junho do ano passado, além de profissionais ligados ao futebol que se aproximam de um ano inteiro sem pagamento. Um cenário difícil de imaginar em um clube do tamanho e da tradição da Ponte Preta.
Diante de uma realidade como essa, é inevitável o questionamento: como exigir alto rendimento de atletas e funcionários quando falta o básico para manter a estabilidade fora do trabalho? Falar apenas de desempenho tático ou técnico, nesse contexto, acaba sendo superficial diante da gravidade do problema.
Um dos episódios que mais simbolizam esse momento foi o do lateral-direito Pacheco. Após conseguir a rescisão contratual na Justiça, o jogador chegou a promover uma rifa com itens usados na final da Série C — como camisa, shorts, meiões, chuteira e até um par de luvas — para arrecadar dinheiro. Um retrato duro da situação enfrentada por quem vestiu a camisa alvinegra recentemente.
O cenário, infelizmente, não chega a ser novidade para o torcedor pontepretano. O roteiro se repete e lembra muito o ambiente que já cercava o clube na campanha que culminou com o rebaixamento para a Série A2 do Campeonato Paulista. E, diante do que vem acontecendo no Moisés Lucarelli, fica cada vez mais difícil colocar a responsabilidade principal apenas no elenco ou na comissão técnica.
A raiz da crise está na gestão.
Enquanto a Ponte não resolver seus problemas administrativos e financeiros, regularizando pendências acumuladas desde meados de 2025, qualquer tentativa de avaliação puramente esportiva ficará incompleta. É claro que o time precisa render mais, mas também é evidente que nenhum grupo consegue competir em alto nível convivendo com tamanho desgaste emocional e instabilidade.
Os números da temporada apenas confirmam esse colapso. Em 13 partidas disputadas entre Paulistão, Copa do Brasil e Série B, a Ponte venceu apenas uma vez, empatou duas e saiu derrotada em dez oportunidades. Mais do que uma sequência ruim, os resultados são o reflexo direto de um clube mergulhado em desorganização.
E talvez essa seja a parte mais preocupante de todas.
A principal derrota da Ponte Preta hoje não está no placar, nem na tabela. Ela acontece longe do gramado, em uma estrutura que parece cada vez mais fragilizada. É uma crise que atinge o futebol, a instituição e, principalmente, a esperança do torcedor.
Se não houver mudanças profundas e urgentes nos bastidores, trocar treinador, mexer na escalação ou buscar soluções imediatistas dificilmente será suficiente. Porque o problema da Ponte, neste momento, não é apenas técnico.
É muito mais fundo.



